Senta-se no parapeito da porta. Espera que o destino tome partido da sua vida e brinque com ela, como sempre fez. A lua já vai alta, bem contornada de estrelas no ponto mais alto do céu indistinto. Ilumina-lhe os cabelos curtos de tom preto, os olhos esverdeados protegidos de lágrimas revoltadas, as mãos quadradas próprias de um rapaz, o tronco corpulento … Todos os infinitos pormenores nele escondidos, foram trespassados naquele instante. Vivia naquele momento, com as duas mãos assentes nas pernas largas e a cabeça em baixo, virada para o chão alcatroado da rua. Cercado de mistérios da vida, perguntas vulgares sem resposta, imagens monótonas mas reais. Tentava perguntar a si mesmo o ‘porque’ de muitas ideias difusas. Incompreensível. Sabia que a resposta a todas essas perguntas continuavam a ser uma incógnita, até para o humano mais inteligente á face da terra. Não seria ele o entendido a desvenda-la e isso constrangia-o. A falta dessa sabedoria prejudicava-o, errava a cada passo que dava. Metia o pé na poça e nem sabia como. Sempre tentou encontrar a sua cura, a substância que o fizesse, de uma vez, mudar. Ou a aprender a ser outra pessoa. Mas sempre duvidou de si, preparava as suas ‘partidas á descoberta’ com um pé atrás e outro a frente, á espera de cair no mesmo erro, sozinho. Estava certo de que os seus sonhos, um dia, se iriam tornar realidade, que tudo tinha uma razão. Era mesmo assim, de alguma maneira iria acontecer assim. Sem tirar nem pôr. Estendia as suas mãos ao destino e embarcava na barca, rumo ao atingível, acabando por deixar de lado o inatingível. O desafio. O arrepio na espinha, a adrenalina, a descoberta. O sentimento de que o mérito era seu. Que se tinha revoltado contra si mesmo e corrido á procura do seu próprio destino, ainda por traçar. Levantou-se, ergueu as mãos á cara, sacudiu a vergonha adormecida e embalou-se a ele próprio numa façanha para escrever o seu destino.