Juro-te que não olhei para trás. Nunca pensei mais de três vezes em deixar este fim de mundo para trás e tu, nunca foste razão para eu ficar. Por isso sim, vim-me embora e deixei-te sozinho, a enlouquecer no meio desses velhos e dessas ruas frias sem gente. Nunca serei como tu! Nunca conseguirei habituar-me, á tua ideia rídícula de viver da terra, de cultivares neste Alentejo tão velho, onde as noites são incontroláveis e vazias. A minha energia provém da metrópole. Do barulho dos carros em filas, das ruas cheias de gente que me impossibilitam de passar, caras novas todos os dias, novidades, privacidade, VIDA! Como eu venero a minha cidade. A curiosa sensação de ela me completar, como tu nunca conseguiste nesse descampado. Agora recordas-te bem dos meus sorrisos bordados, das minhas doenças propositadas, dos livros inacabados e tudo o resto que, no fundo, sabias que era forçado. Incrível como nunca fizeste nada! Deixas-te com que me afogasse nos teus sonhos e extermina-se os meus. Percebo, agora, que nunca foram importantes para ti, como tentar realizar os teus foi para mim. Enquanto espero na estação, tento recordar os nossos tempos de glória. Vinte anos e ainda tão imaturos, tão apaixonados, tão cegos... Tínhamos o futuro planeado; casamento, casa no centro da cidade com decoração rústica, porque ambos odiávamos as linhas rectas e limpas dos modernismos, um cão ou um gato, acabas-te por me oferecer um porco da índia e eu adorei-o como uma menininha de oito anos, e filhos, 2 no máximo. Éramos felizes com tão pouco. Lembro-me de pensar que, se estivesses comigo a minha vida já tinha sentido. Uau, era uma sonhadora. Sim, no tempo em que eras um romântico incurável, e me oferecias as argolas do porta-chaves como anéis. Guardei-os até hoje, e deixei-te-os em cima da mesinha de cabeceira. O nosso amor foi tão decadente. Foi morrendo aos poucos e poucos, perdendo forças e desmoronando-se. Tive pena. Era tão amoroso no seu auge. Claro que era uma piada, mas também nunca te riste das minhas piadas, achavas as tuas demasiado eufóricas para te rires das minhas. Havia desses dias em que, só me apetecia que te sufocasses no teu próprio riso enjoativo. Irónico como o nosso amor era consumido pelo meu ódio. Amei-te como nunca amei ninguém mas, numa contra-partida boa, odiei-te como nunca odiei ninguém. Odiar-te soube-me tão bem! E ainda sabe. Agora, já dentro de um comboio prestes a fugir de ti e do mal sempre me fizeste, percebo que fostes um erro. Um dos meus melhores erros, mas infelizmente continuas a ser um grande erro de percurso.