Querido coração,

Agora que estás bem magoado e sem cicatrização possível, achei racional escrever-te o porquê desse teu estado precário. Nada foi inútil, e a grande ferida que te escorre de um lado ao outro do teu bater , hoje frio, um dia talvez tenha força para fechar e voltar a cicatrizar. Provavelmente porque, hoje, voltaste a perder metade do teu fôlego, voltaste a chorar lágrimas quentes que me limparam a cara e, pela última vez, prometo, voltaste a perdoar e a prevenir que tudo o que eu visse, fosse tão odioso como a forma arrebatadora com que tudo agora acaba comigo. Connosco. Peço desculpa por te fazer atravessar linhas que nem eu consigo acabar e, para além disso, a forma como te faço ouvir e ler tudo nunca pensado em ti mas em mim. A terrível verdade é que, não é para te maltratar. É para me fazer sentir na pele dor e desapontamento, para me fazer acordar. Parei hoje, ao ouvir-te desfazeres-te em minuciosos pedaços tingidos de vermelho. Parei, porque desta vez ouvi-te a chorar por mim. A soluçar o que eu te obriguei a suportar e que, por meu bem, nunca os quis arrancar. Podia ter-te abraçado, dado uma festa calorosa mas vi-te tão longe da minha cabeça, dos meus instintos. Vi e senti-te a perderes-te por aquilo que já eu me perdi e aí comparas-te as dores. Avalias-te como o meu sangue quente irritado circulava, a pulso, pelas minhas veias. Lembraste-te de como as minhas noites acabam sempre em rios salgados que escorrem pela almofada e dos meus olhos inchados e mortos de manhã. Murmuras-te para ti que afinal vives no quentinho dentro de mim e sou eu que, todos os dias, morro mais um bocado fisicamente e te protejo. Contra o frio da manhã, o calor que torra da tarde e a brisa esquisita da noite. Enganaste-te muito bem nessa comparação, desmedida, que fizeste entre eu e tu. Entre a vida que consideras pacata, aí dentro de mim, com tsunamis de emoções, que não é meu trabalho parar, com a exposição que eu tomo aqui fora, a ver dias a passar. A comer horas. A desperdiçar minutos enquanto te esforças para me manteres minimamente viva, mesmo que o meu querer seja diferente desse.
Mesmo sabendo que isto vai directamente para ti, para te animar e para te curar dessa ressaca, não tenho o mínimo de pudor em dizer-te friamente a minha verdade, apesar de saber, que tu sabes, que o problema gira, nos dois casos, para o mesmo lado. E como decido finalmente em deixar-te viver, orgulho-me de te dizer que temos de aprender a trabalhar assim. Porque, meu coração já velho e desgostoso, sofremos os dois do mesmo e, sendo assim, limito-me a provar-te que somos apenas um. Que vivemos para nos acalmar um ao outro e que finalmente estará no teu controlo o resto desta vida. O bom e o mau. E talvez desta vez serás tu a escrever-me uma carta em contexto de desculpa, de lágrima no olho e aí também tu, irás dizer que não era para meu bem, era para teu, e eu vou perdoar. Vou ser a rapariga caprichosa, esperançosa e de boa tolerância, que sabe esperar e sonha demais. Vou ser aquela, por quem tu bates todos os dias, mesmo ferido. Mesmo a sangrar. Mesmo em inicio de cicatrização…