Agora que morri e vivo lá bem nas estrelas, olho para o meu mundo terreno e venero-o. Observo-o bem no ponto onde o Sol o atinge e acaricio a forma como ele absorve o seu toque delicado. Daqui de cima vejo tudo. Vejo-vos a vocês e glorifico a vossa existência porque, antes queria ser estrela e agora, quero voltar a ser humana. Ou melhor ainda quero voltar. Aprendi a deixar-me brilhar, a deixar-me estar e esperar que me dêem uma segunda oportunidade. Me dêem um corpo e me deixem ser alma viva mais uma vez. Hoje sou alma morta, brilhante, invejosa e sábia. Estou sozinha neste paraíso bem acima das vossas cabeças e das vossas consciências a tratar de assuntos vossos, a penar por erros vossos. Sempre gostei do meu mundo. Da frescura matinal e do cheiro frio a orvalho, aquele nevoeiro fino que preenche qualquer madrugada e do nascer do Sol meio atormentado, meio esquecido. Manhãs calmas, e tardes bem agitadas com misturas de perfumes electrizantes a fugir-nos por entre as madeixas de cabelo. Eu vivia no luxo da experiência, tudo novo, tudo aproveitado ao máximo. Adorava tudo o que era novidade nas ruas. As novidades voavam e transpareciam mais depressa que o vento amargo e, mais depressa nos transformávamos em rameiras só por ter-mos aproveitado um beijo quente á chuva. Deliciei-me com tantos beijos desses. Podem calcular a cauda de tertúlia cor-de-rosa que me seguia por todas as avenidas. Quase como "A Bela e o Paparazzo". A minha adorada sorte foi o gigantesco tamanho desta cidade e os esconderijos um tanto ou pouco místicos que eu desvendava, bem de vez em quando. Bonitas foram as tardes que eu morria dentro de um café, atolado em pessoas que por leitura mental entravam só para se protegerem do gelo que chuviscava cada vez mais, por cada passo que déssemos! Tudo o que me faziam suportar aquelas bem contadas horas, era o cheiro de pão acabadinho de sair do forno. Farinha quente. Massa fermentada. Sofria ainda mais quando os trocos nunca eram os suficientes para acalmar o estômago e o desejo!
Fui demasiado atrevida. Nariz-empinado, e pezinho de Cinderela. Era a típica rapariga de cidade. Educação rigorosa, pouca atenção paternal e a resposta foi a vida nocturna de loucura. Fadiga e muito rock n' roll. Piercing no umbigo, tatuagem atrás do ombro, unhas vermelho electrizante, cabelo arco-iris e muito batom á mistura. Pinturas, escapadelas tudo acima da rebeldias.
Justifiquei as minha acções, e remendei-as em todos os anos que me mantive fresca e com uma respiração firme. Hoje, num tempo bem incerto, reparo na quantidade de boémios que levam a mesmo vida que eu levava. Sorrio sempre com nostalgia. Neste estado de elouquência e desespero as memórias de luz e vida permanecem nas nossas mentes, durante terrívelmente muito tempo. Estou condenada a desejar e a marterizar-me, aqui sem vida, sem ver o peito inspirar ou expirar, sem sentir o quente de um beijo á chuva. Permaneço presa a esta estrela, condenada a brilhar até me devolverem o que me roubaram, a ver-vos morrer por erros que eu, não remendei e deixei para trás.