Ela olhou em volta de si mesma. Estava sem inspiração. Não havia nada que fizesse a sua imaginação fluir. Nada que lhe desse ideias e que fizesse com que os seus pensamentos caminhassem e se transformassem em letras, palavras, frases. A música que ela há muito tentava compor, não ganhava ritmo ou vida e ela começava a perder as esperanças de que, a sua pequena criação nunca viesse a ser ouvida, a ser sentida e vivida. Olhava para a parede roxa do quarto, para os postes pregados na parede, para as formas que os lençóis ganharam quando ela desfez a cama de manhã e nada. Não havia uma única nota, uma única rima que saia daquelas colectâneas e a ajudava a acabar a sua pequena e própria melodia. Arreliada, atirou para o chão, tudo que estava em cima da sua secretária. Sentia-se angustiada. Ela sabia que tinha e conseguia acabar aquela música, ela não a queria deitar fora. Aquela música contava coisas importantes para ela e ao contrário das outras pessoas, conseguia senti-la percorrer o seu corpo num arrepio cortante. De noite, de olhos fechados, ouvia a sua música. De frente para trás, de trás para a frente, e tentava agrupar tudo o que sentia no momento e dar um final marcante e emocionante á ultima quadra, á ultima melodia. Abriu os olhos de repente, levantou-se, pegou numa caneta que ainda estava espalhada no chão, agarrou com força a sua viola e deixou-se levar pelas notas que voavam para fora da mesma. Durante toda a noite, trabalhou na sua música. Envolveu-se, não parou enquanto não a achou perfeita. Quando finalmente a acabou, não a tocou, levantou-se, encostou a viola á parede, deitou-se na cama e sentiu-se satisfeita. Orgulhosa consigo própria. De manhã, colocou a viola às costas, subiu para a bicicleta e pedalou até á praça. Quando lá chegou, sentou-se num banco, pôs um chapéu no chão e tocou-a pela primeira vez, ali na praça para toda gente ouvir e sentir o que ela sentiu, e a sente ao ouvi-la.