
Quando ela me contou, o meu coração parou. Um calafrio percorreu-me o corpo todo e as lágrimas subiram aos meus olhos, prontas para cair. Fiquei perplexa, os pés colaram ao chão, os olhos não tinham expressão. Cai no abismo por outra pessoa e o caminho é negro como o breu, feito de ruas rectas sem indicações nem avisos. A culpa trespassa-me como uma seta. Como que impulso, sento o meu corpo morto num banco de jardim e deixo-me ficar ali, a ouvir a voz amparada de medo e receio, abarrotada de lágrimas que se ouvem mais que as palavras. Deixei-a sozinha, numa vila de malucos! Á mercês de psicopatas, pervertidos. Contou-me tudo o que se passou com um misto de pânico e alivio, senti as suas mãos a tremer, a cabeça a abarrotar de ideias de um futuro alternativo, o desafogo que sentiu quando viu amigos prontos para a levarem a casa. Conforto-a com aquilo que neste momento também me conforta a mim. Com o pouco que sei, tento tirar-lhe o peso de cima e abraça-la á distancia, e dizer-lhe que está tudo bem. Que nada lhe vai acontecer, porque desta vez eu vou lá estar para o impedir.