Eu bem procuro mas esta droga já me desgastou tanto por dentro que, lentamente, fui deixando com que ela me matasse e me arranca-se aquilo que me faz lutar contra ela. É daquelas que se delicia de ti, te come as entranhas e deixa-te com pedaços de nada a flutuar dentro de ti. Fui amaldiçoada com este virús infectuoso, contagioso e por mais cuidado que eu tenha, ele, não se preocupa ao deixar-me na linha. Á espera de nada. É esse o meu erro. Não espero por nada, nem por ninguém e ele adora esse sentimento de repulsa. Devora-o como eu devoro tabaco e frio quente da noite. Devora porque tem um carinho especial por almas perdidas e eu fui a presa ideal. Sentada e com as defesas do meu organismo desfeitas em cinzas, com a boca a saber a nicotina e o perfume a desaparecer no calor do café, viu-me, apontou, desparou, acertou, morri. Surpresa das surpresas. Durante três dias senti-me curada de todas as ressacas, de alcóol e amor, os outros cinco anos vi-me presa a uma cama. A um quarto sem termostato e monstros debaixo da cama. Li-a um jornal, um livro ou dois com o mínimo interesse, que me tinha esquecido de ler e vivia afogado no pó da mesa-de-cabeceira, bebia café, umas vezes puro outras vezes com cheiro a vodka, um comando na mão e dias a engordar em frente á televisão á espera que a constipação parasse. A partir daí era um passo longe da vida e um perto da morte. Nunca me importei e estou a dizê-lo agora, para acharem o contrário. Já tinha feito de mim a casa dele, e eu pouco me importei. Para ser sincera, durante algum tempo adorei tê-lo dentro de mim, de certo modo fazia-me bem saber que ia morrer. Senti-me ainda melhor quando realmente morri, não sou macabra mas, provavelmente, estou muito perto disso. Passava dias a ouvir os vizinhos do lado a discutir, os de cima a "fazer as pazes" e a minha empregada, sempre muito rufia, a aspirar a casa enquanto eu fazia questão de dormir. Ela pelo visto também fazia questão de muitas coisas, especialmente de levar "emprestados" muitos itens da minha decoração divinal. Família, aborrecia-me. Sempre menosprezei as sopas quentes da minha mãe, as piadas do meu irmão e as artes plásticas do meu pai, para não falar do estúpido e baboso cão, que me comia as cabeças das barbies e as enterrava no jardim. Familía feliz. Quando me vi maior e vacinada, peguei no dinheiro que o meu avô me deixou e corri mundo, ou pelo menos uns cinco países, pensei em poupar para uma casa á minha medida, por isso podem calcular e bem que formar familia não era para mim e não foi. Fugi, literalmente, a pedidos de joelho no chão. Mesmo que estivesse mesmo apaixonada pelo rapaz. Era demais para mim, não sei porque. Deixo que apenas a minha doença viva comigo até que a morte nos separe. Talves mais cedo do que eu previa.